Uma criança que falta à escola porque teve diarreia, uma família que depende de água sem tratamento para beber e uma comunidade onde uma doença simples pode se agravar pela demora no atendimento: essas situações ainda fazem parte da rotina de muitas localidades da Amazônia e revelam uma relação direta entre a ausência de saneamento básico e o aumento de doenças evitáveis.
Para quem acompanha essa realidade de perto, como o engenheiro sanitário e ambiental Gabriel Maraslis, especialista em Água, Saneamento e Higiene (WASH) do UNICEF Brasil para o território amazônico, garantir água potável e acesso ao esgoto tratado vai muito além da infraestrutura.
“Ao longo dos últimos anos, trabalhando pelo UNICEF, visitei comunidades indígenas, ribeirinhas e rurais da Amazônia, onde foi possível observar os impactos diretos da ausência desses serviços na saúde de crianças e adolescentes. Quando uma criança adoece repetidamente por consumir água contaminada, ela falta à escola, compromete seu desenvolvimento físico e cognitivo e se torna mais vulnerável a outras doenças. Garantir água, saneamento e higiene significa criar condições para que crianças cresçam com saúde e para que as famílias tenham mais qualidade de vida.”
Para saber mais, assista: Saúde e Alegria leva saneamento para ribeirinhos da Amazônia.
Saneamento: condição básica que protege vidas e reduz desigualdades
Embora a Organização das Nações Unidas (ONU) reconheça o acesso ao saneamento como um direito humano, a realidade de muitas comunidades amazônicas ainda está distante desse princípio.
A falta de saneamento impacta principalmente crianças e adolescentes. O acesso precário à água de qualidade e ao esgoto tratado cria um ambiente favorável para doenças que poderiam ser evitadas.
Segundo Gabriel Maraslis, reconhecer esses serviços como direitos humanos significa garantir condições mínimas para que todas as pessoas tenham acesso à saúde, à educação e a uma vida digna, independentemente do lugar onde vivem.
Diarreia ameaçando crianças
A combinação entre água insegura, ausência de serviços de esgoto e condições precárias de higiene favorece a circulação de doenças de transmissão hídrica e agrava indicadores de saúde, principalmente entre crianças pequenas. Até hoje crianças morrem afetadas por diarreia, por exemplo.
“Nas comunidades mais vulneráveis, a falta de água segura, de instalações sanitárias adequadas e de práticas de higiene aumenta significativamente a ocorrência de doenças como diarreias, hepatites virais e parasitoses intestinais. Entre as crianças pequenas, a diarreia continua sendo uma das principais preocupações. Além do risco imediato de desidratação, episódios repetidos comprometem a absorção de nutrientes, favorecem a desnutrição e prejudicam o desenvolvimento infantil.”
Para saber mais, ouça o podcast com outro especialista do UNICEF: No semiárido e na Amazônia, estudar é um ato de resistência.
Crises humanitárias
Além das visitas às comunidades amazônicas, Gabriel Maraslis também levou essa experiência para algumas das maiores emergências humanitárias recentes. Ele integrou ações de apoio à Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional (ESPIN) na Terra Indígena Yanomami, participou da resposta à migração venezuelana em Roraima e atuou em iniciativas relacionadas à crise de deslocamento populacional no norte de Moçambique.
“Em qualquer emergência, uma das prioridades é garantir o acesso à água segura, evitar a recontaminação das fontes de água e assegurar o manejo adequado das excretas e boas práticas de higiene. Muitas vezes, medidas como a desinfecção correta da água com hipoclorito de sódio a 2,5%, a redução da defecação a céu aberto e a lavagem das mãos com água e sabão têm impacto significativo na prevenção de doenças relacionadas ao saneamento inadequado. Essas ações interrompem a cadeia de transmissão antes mesmo que as doenças se espalhem.”
A realidade amazônica exige soluções específicas
Apesar de concentrar a maior disponibilidade de água doce do planeta, a Amazônia ainda convive com comunidades sem acesso regular à água potável. Essa contradição mostra que a disponibilidade do recurso não significa, necessariamente, acesso seguro.
Segundo ele, as grandes distâncias, o difícil acesso às comunidades, as variações no nível dos rios e os efeitos cada vez mais intensos das mudanças climáticas exigem soluções adaptadas às características da região.
“Precisamos desenvolver sistemas de abastecimento de água e saneamento que sejam resilientes às secas extremas, às cheias intensas e a outros eventos climáticos que se tornam cada vez mais frequentes. Também é fundamental ampliar soluções adequadas para comunidades pequenas e dispersas, valorizando a participação e os conhecimentos das próprias populações locais. O desafio é garantir que a água chegue às pessoas com qualidade, segurança e continuidade.”
Saneamento também é um investimento no futuro
Para Gabriel Maraslis, reduzir doenças evitáveis na Amazônia depende de uma atuação articulada entre governos, iniciativa privada, universidades, organizações da sociedade civil e comunidades. Além de ampliar os investimentos, será necessário fortalecer modelos de gestão capazes de garantir o funcionamento permanente dos sistemas implantados.
“O Brasil possui conhecimento técnico e capacidade institucional para avançar na universalização do saneamento. O desafio é fazer com que esse avanço também alcance os territórios mais remotos e historicamente excluídos. Garantir água, saneamento e higiene para todas as crianças não é apenas uma meta de infraestrutura. É um investimento direto na saúde, na educação, na redução das desigualdades e no futuro da Amazônia e do Brasil.”
Texto: Ray Santa Cruz
Fotos: Acervo Pessoal Gabriel