“Saúde começa em casa e não em hospitais”, diz especialista

“Saúde começa em casa e não em hospitais”, diz especialista

A ideia de que a saúde começa dentro de um hospital ainda é comum no imaginário coletivo. No entanto, especialistas alertam: o verdadeiro ponto de partida está muito antes, nas condições em que as pessoas vivem, ou seja, nos territórios. A falta de saneamento básico segue como um dos principais fatores que determinam o adoecimento no país.

Dados recentes do Ranking do Saneamento 2026 reforçam esse cenário. O levantamento aponta que mais da metade dos cem municípios mais populosos do Brasil investem menos de R$ 100 por habitante em saneamento, valor muito abaixo dos R$ 225 considerados necessários para a universalização dos serviços. Em 2024, o investimento médio foi de apenas R$ 135,89 por pessoa.

Déficit estrutural

Esse déficit estrutural impacta diretamente a saúde pública, segundo a doutora Carla Pintas Marques, especialista em saúde coletiva.

“O saneamento básico é um dos pilares estruturantes da saúde. Ele atua na prevenção de doenças, na promoção da qualidade de vida e na redução das desigualdades sociais.”

Desmistificando: saúde não começa no hospital

A percepção de que a saúde está ligada apenas ao atendimento hospitalar ainda é forte no Brasil, mas não corresponde à realidade.

Segundo a especialista, essa visão está associada a um modelo historicamente centrado na doença e no tratamento. No entanto, a ciência já demonstrou que a maior parte dos problemas de saúde tem origem nas condições de vida, como a moradia, a alimentação, a renda e, principalmente, o saneamento.

“Mudar essa lógica exige fortalecer a educação em saúde e valorizar a atenção primária, que atua justamente na prevenção e no cuidado contínuo.

Hospital lota onde falta tratamento do esgoto

A consequência direta da ausência de saneamento aparece nas unidades de saúde. Doenças que poderiam ser evitadas com infraestrutura adequada continuam levando milhares de pessoas aos hospitais.

Entre as principais enfermidades associadas à falta de saneamento estão diarreias infecciosas, hepatite A, leptospirose, esquistossomose e parasitoses intestinais. Além disso, o manejo inadequado de água e resíduos favorece a proliferação de vetores de doenças como dengue e chikungunya.

“O que vemos na prática é que problemas evitáveis acabam gerando aumento de atendimentos e internações, sobrecarregando o SUS”, explica a especialista.

Atenção primária: onde a saúde realmente começa

Se o hospital representa o tratamento, é na atenção primária que a saúde de fato começa. Presente nas comunidades e próxima da realidade da população, a atenção básica permite identificar riscos, orientar famílias e atuar diretamente na prevenção de doenças.

“A atenção primária atua onde as pessoas vivem, permitindo identificar vulnerabilidades, promover educação em saúde e acompanhar os impactos dessas condições ao longo do tempo.”

No entanto, ainda há desafios importantes. A integração entre as políticas de saúde e saneamento segue limitada, o que dificulta respostas mais eficazes.

Para avançar, especialistas defendem uma atuação intersetorial, com planejamento conjunto entre saúde, infraestrutura, meio ambiente e assistência social, além do uso de dados dos territórios para orientar políticas públicas mais eficientes.

“É importante utilizar os dados produzidos pela atenção primária para orientar políticas públicas mais eficazes, baseadas nas necessidades reais dos territórios.”

A infraestrutura e universalização do saneamento são o caminho para mudar o cenário. Enquanto o país ainda convive com milhões de brasileiros sem acesso a serviços básicos, não há como garantir saúde de forma efetiva. Mais do que tratar doenças, é preciso evitá-las — e isso começa, necessariamente, no território.

Texto: Ray Santa Cruz
Fotos: Acervo pessoal
Fontes: Ranking do Saneamento 2026Revista FT – Revista Veja

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