Em um país onde milhões de pessoas ainda convivem com rios poluídos, descarte inadequado de resíduos e dificuldades de acesso ao saneamento, uma ideia criada por um estudante brasileiro chama a atenção pela simplicidade e pelo potencial sustentável. O jovem Gabriel Mocitaiba Pinheiro, morador de Camaçari, na Bahia, desenvolveu o Amendoclean, projeto que utiliza casca de amendoim para remover poluentes da água contaminada.
A iniciativa, que une ciência, sustentabilidade e economia circular, foi selecionada para a Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (FEBRACE) 2026, considerada a principal feira pré-universitária dessas áreas do país.
A descoberta se destaca pelo potencial de aplicação ambiental para melhorar a qualidade da água e evitar o descarte irregular de resíduos agroindustriais.
Uma ideia que nasceu da observação do cotidiano
Gabriel conta que o projeto nasceu da relação entre dois problemas presentes no dia a dia: o descarte inadequado de resíduos e a poluição hídrica.
“O projeto surgiu muito da observação do dia a dia aqui em Camaçari. Por um lado, nós temos o polo petroquímico e, infelizmente, o descarte de efluentes na água sem o tratamento ideal ainda é uma realidade. Do outro lado, principalmente na época do São João, a gente tem uma cultura muito forte de comer amendoim cozido. Isso gera uma montanha de cascas que vai parar direto no lixo. A ideia do projeto foi justamente tentar amarrar essas duas pontas: usar um problema, que é o lixo da casca, para resolver o outro, que é a poluição da água.”
Como a casca de amendoim vira um material capaz de tratar a água
A partir dessa percepção, Gabriel passou a investigar como a casca do amendoim poderia ganhar uma nova função ambientalmente útil. O resultado foi a criação de um biocarvão ativado capaz de adsorver substâncias tóxicas presentes na água.
“Descobri que a casca de amendoim é um bom precursor para criar um material chamado biocarvão. Quando a gente trata essa biomassa e a aquece em altas temperaturas, ela ganha propriedades ideais para isso: fica com uma superfície cheia de poros e com uma área de contato elevada. Na prática, o biocarvão funciona como se fosse uma ‘esponja’ microscópica. Por meio de um processo químico chamado adsorção, ele consegue puxar e prender as moléculas de poluentes que estão na água.”
No desenvolvimento do Amendoclean, as cascas de amendoim cozido passam por lavagem, secagem, moagem e peneiramento. Depois, o material é ativado quimicamente com ácido fosfórico e submetido ao processo de carbonização, formando o biocarvão ativado.

Corante tóxico ameaça rios e ecossistemas
O foco principal do estudo foi propor uma solução para o índigo carmim, corante amplamente utilizado pela indústria têxtil e frequentemente associado à poluição de corpos hídricos, quando descartado sem tratamento adequado. Mas os impactos ambientais desse tipo de contaminação vão muito além da alteração da cor da água.
“Quando descartam o corante nos rios sem o tratamento adequado, ele acaba bloqueando a passagem da luz solar na água, impedindo que as plantas aquáticas realizem a fotossíntese. Com isso, os níveis de oxigênio diminuem, prejudicando a vida aquática e trazendo riscos para a saúde humana.”
Resultado surpreendeu até o estudante
“O que mais me impressionou foi a eficiência do biocarvão que produzi. Nos testes, ele conseguiu remover praticamente 100% do corante em concentrações menores e mais de 98% em concentrações maiores, em apenas uma hora de contato. Ver que um resíduo descartado consegue alcançar um desempenho semelhante ao de um produto comercial foi algo incrível. Sem dúvida, essa foi a maior recompensa do projeto.”

Tecnologia para preservação ambiental e para o saneamento
Para a professora Roseli de Deus Lopes, coordenadora-geral da FEBRACE, projetos como o de Gabriel mostram como a educação científica pode transformar territórios e estimular soluções sustentáveis.
“Quando os jovens começam a desenvolver projetos para a FEBRACE, eles conseguem unir questões ambientais e sociais. Muitos identificam problemas nos próprios territórios e criam soluções viáveis, como transformar resíduos em tecnologias capazes de ajudar no tratamento da água e na sustentabilidade”, afirmou.
Quer saber mais sobre o trabalho da FEBRACE? Clique aqui e ouça a entrevista com a professora Roseli.
Texto: Ray Santa Cruz
Fotos: Acervo Gabriel Mocitaiba
Fontes: Febrace | YouTube | Instagram