Resíduos ameaçam manguezais e exigem ação urgente, diz especialista

Resíduos ameaçam manguezais e exigem ação urgente, diz especialista

Considerados um dos ecossistemas mais ricos e importantes do planeta, os manguezais desempenham um papel fundamental na proteção da biodiversidade, na reprodução de espécies marinhas, na captura de carbono e na segurança das comunidades costeiras. No entanto, esses ambientes enfrentam uma ameaça crescente: a chegada de resíduos transportados por rios, canais de drenagem e áreas urbanas.

Embora muitas pessoas associem a poluição marinha apenas ao lixo encontrado nas praias, a maior parte dos resíduos que alcança o oceano tem origem em áreas urbanas e percorre longas distâncias até chegar aos ambientes aquáticos. Como os manguezais ficam no caminho de rios, lagoas e estuários (corpos de água costeiros parcialmente fechados onde rios encontram o oceano), eles acabam funcionando como receptores dessa poluição antes que ela chegue aos mares.

Para discutir esse desafio e apresentar soluções que já estão sendo implementadas no Brasil, o Saneamento Salva conversou com Gabriela Otero, gerente de Água, Oceano e Resíduos do Pacto Global da ONU – Rede Brasil. 

Na entrevista, Gabriela explica como os resíduos chegam aos manguezais e ao oceano, apresenta o trabalho do programa Blue Keepers e destaca uma experiência desenvolvida em Santos (SP), onde a instalação de uma ecobarreira em um mangue contribuiu para a recuperação da vegetação nativa e para o retorno de dezenas de espécies da fauna local.

Leia a entrevista completa a seguir. 

Quais as principais ameaças para os mangues?

Os principais fatores são o descarte irregular de resíduos e a falta de infraestrutura adequada de limpeza urbana e de sistemas mais resilientes, capazes de prever e minimizar esse tipo de problema. Estamos falando, por exemplo, do gradeamento das saídas da drenagem e de uma coleta e uma limpeza urbana com maior frequência. Às vezes, em um período de apenas 24 horas, ocorre um grande descarte de resíduos na malha urbana; então, se uma chuva intensa acontece logo em seguida, em questão de uma ou duas horas esses materiais são arrastados para a rede de drenagem e, consequentemente, para os rios. Atualmente, cerca de 80% da poluição que circula nas águas do oceano, composta majoritariamente por plásticos, tem origem em fontes terrestres. Estamos falando de rios que recebem água da drenagem urbana e efluentes de esgoto tratado, sofrendo influência de fatores como a topografia e os ventos. Com isso, os corpos hídricos transportam esses materiais — muitos deles flutuantes, como os plásticos — até os mangues e os mares. Esses fatores relacionados precisam ser enfrentados para evitar essa conjuntura e reduzir os impactos da poluição.

Por que os manguezais costumam ser tão afetados?

São ecossistemas aquáticos diferentes. O perfil dos resíduos que param em manguezais e ficam muito próximos de comunidades vulneráveis é domiciliar; são resíduos estacionados na lama, como produtos de limpeza, vestuário, calçados, brinquedos, cosméticos e uma gama de coisas que encontramos em casa e estão ali depositados de forma irregular. Isso denota falta de infraestrutura adequada, saneamento e gestão de resíduos num contexto de vulnerabilidade. Fora que o manguezal tem um perfil ecossistêmico e muitos resíduos que vêm de longe ficam presos nas raízes do mangue. É como se fosse uma barreira natural que sofre muito com isso.

O projeto Blue Keepers contribui para a solução do problema?

O Blue Keepers é um programa do Pacto Global da ONU – Rede Brasil que recentemente completou cinco anos. Ele foi criado junto com a Década do Oceano das Nações Unidas (2021 a 2030) para mobilizar o setor empresarial a adotar diferentes formas de prevenção e mitigação dos impactos da poluição por plásticos nos mares. Para isso, o Blue Keepers teve início com uma colaboração acadêmica e científica junto à Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano. Essa equipe trabalhou com dados e gerou informações que nos deram um panorama do escape de resíduos para o meio ambiente, para os corpos hídricos e para o oceano no Brasil. A partir dessa publicação, foi desenvolvido um mapa georreferenciado das cidades que apresentam maiores condições de risco para o escape de resíduos e sua chegada ao oceano. Junto às suas apoiadoras, que são empresas engajadas no Pacto Global, o Blue Keepers atua em 24 municípios, desde Manaus (AM) até Porto Alegre (RS), passando por cidades do Nordeste, Brasília (DF), Belo Horizonte (MG), Rio de Janeiro (incluindo a Região dos Lagos e a capital), além de São João da Barra, Santos e Itanhaém. Essas cidades fornecem dados e, consequentemente, contribuem para a solução dos problemas. A partir dessas informações, realizamos pesquisas de campo para compreender o perfil dos resíduos que chegam aos ecossistemas aquáticos locais. Esses materiais foram encontrados em manguezais, lagos, lagoas, margens de rios e praias. 

Como é a atuação na prática?

Com essas informações, conseguimos mobilizar propostas de projetos que tragam soluções, como ecobarreiras, melhorias nos sistemas de gestão de resíduos e ações de valorização dos materiais recicláveis — especialmente os plásticos. Cada cidade e cada perfil de resíduo apresentam demandas específicas por soluções, e o Blue Keepers faz essa articulação como programa, olhando para o Brasil como um todo. A partir disso, também levamos os resultados para conferências mundiais, sejam as promovidas pela ONU ou aquelas voltadas à temática do oceano, para continuar mobilizando diferentes atores. Hoje, o programa conta com seis grandes apoiadoras: a Aegea, a Iguá Saneamento, o OceanPact, o Santos Brasil Participações, a Cerveja Praya e o Porto do Açu. Essas organizações apoiam as estratégias definidas pelo programa e apadrinham territórios que recebem a coleta de dados, passando a integrar o mapa com informações que ajudam a pensar em soluções. Além disso, realizamos a articulação com a sociedade civil local e com o poder público para transformar esses diagnósticos em ações concretas.

Os resíduos encontrados nos manguezais e praias têm a mesma origem?

Não. Os resíduos de praias e lagoas têm um perfil mais turístico, que denota mau comportamento dos usuários de praia. E isso, muitas vezes, ocorre pela falta de comunicação ou de estrutura para que essas pessoas façam o correto, ou seja, não depositem resíduos na areia. Mas há também resíduos que chegam com a maré e, dependendo da cidade, conseguimos identificar a origem. Em Santos, por exemplo, identificamos que os resíduos que vão parar na faixa de areia geralmente vêm de comunidades vulneráveis atrás da ilha, na zona noroeste, ou de Cubatão, Guarujá e São Vicente. Isso acontece pela configuração dos estuários ou pelo regime de marés.

Já foram identificadas milhões de toneladas de resíduos plásticos. O que o diagnóstico revela?

A gente percebe que não existe uma solução única e, a partir desses dados, precisamos pensar qual é a ação exigida para cada localidade: se é infraestrutura, comunicação, ambos ou mesmo uma ação específica para determinado resíduo. Quando olhamos para o plástico flexível, por exemplo, sabemos que é um resíduo específico, que se origina do esgoto a partir do comportamento das pessoas — ou seja, as pessoas usam cotonetes e jogam dentro do vaso sanitário. Então, seria o caso de instalar mais lixeiras? Melhorar o gradeamento do esgoto tratado? Poderia ser. Mas também pode ser uma solução de comunicação para que as pessoas não joguem plástico flexível no vaso sanitário ou simplesmente deixem de utilizá-lo. Cada situação exige uma forma diferente de atuação.

Que benefícios ambientais e sociais a proteção dos manguezais pode gerar? 

Em Santos, nós temos um projeto que foi incubado pelo Blue Keepers e que hoje tem bastante autonomia. O projeto inspirou a Operação em Rede, que consiste na instalação de uma ecobarreira próxima à comunidade do Jardim São Manoel. Pela sua configuração, ela protege um fragmento de manguezal, não só interceptando o resíduo que vem do canal estuarino, mas também impedindo que esse material fique retido na lama desse fragmento. São inúmeros os resultados obtidos até hoje, e a configuração dela foi pensada justamente para isso. Pessoas da comunidade são capacitadas, recebem remuneração e trabalham diariamente na ecobarreira, realizando a limpeza, a retirada, a qualificação, a quantificação dos resíduos e o encaminhamento para valorização ou destinação ao aterro sanitário. Além disso, há um trabalho de educação ambiental com as escolas do entorno, para que as pessoas conheçam a ecobarreira, respeitem a sua existência e colaborem para que menos resíduos cheguem à maré.

Outro trabalho de prevenção ocorre em algumas ocasiões do mês, quando os moradores podem levar resíduos plásticos e trocá-los por uma moeda social chamada guará, que pode ser substituída por cesta básica e material escolar para as crianças — duas das necessidades mais urgentes da comunidade. A iniciativa foi pensada de forma perfeita às necessidades deles, por isso é um sucesso. A ecobarreira nunca sofreu danos, a comunidade é engajada, empoderada, conhece sua importância e colabora porque ela gera emprego, renda e oportunidades de bem-estar, além de contribuir para atender necessidades mais urgentes da população.

Os manguezais podem se recuperar quando recebem proteção adequada? 

Esse fragmento de manguezal em Santos já está em processo de regeneração natural, com o retorno de mais de 30 espécies da fauna, entre aves e peixes. Então, ali, já começamos a ver a natureza tendo a oportunidade de se regenerar. 

O que precisa mudar no modelo atual de produção e consumo para evitar que o lixo chegue ao mar?

A gente precisa de uma inteligência aplicada, que significa passar do conhecimento teórico, de saber o que é correto, para a prática. E isso implica tanto em mudança nos negócios quanto no comportamento da sociedade. O produto, quando vai para a prateleira, precisa ser pensado com materiais que tenham valor de reciclabilidade, podendo ser reciclados tanto técnica quanto economicamente, porque apenas um desses fatores não basta; é preciso haver viabilidade e valor para estimular o descarte adequado. Também precisamos repensar a quantidade de embalagens dos produtos, porque, na visão da gestão de resíduos, menos é mais: quanto menos resíduos eu tenho para gerenciar, melhor é a minha oportunidade de fazer isso bem, de ter uma boa circularidade, de entender esses materiais, de saber qual caminho cada um deve seguir e de agir de forma adequada. 

Além disso, é importante tirar o foco apenas dos materiais secos, que são os recicláveis mais conhecidos — papel, plástico, vidro, metal e papelão —, e olhar para a fração orgânica. Os resíduos orgânicos, quando bem gerenciados, não contaminam a fração seca e, portanto, ajudam a manter seu valor de mercado. O resíduo orgânico, ainda, gera metano, que é um poluente climático com alto potencial de impacto e uma vida relativamente curta na atmosfera. Então, se fizermos uma boa gestão e realizarmos a separação adequada, também contribuiremos para mitigar os impactos das mudanças climáticas. Eles são a terceira maior fonte de poluentes climáticos.

Precisamos de um sistema pensado para circular, e não para seguir o caminho da esteira até um aterro sanitário. Esse é o modelo que tende a persistir ao longo do tempo, viabilizando mais parcerias públicas e privadas. Isso porque é preciso que seja bom tanto para os negócios (em termos de adaptação, comércio e mercado) quanto para o sistema público, responsável por gerir esses resíduos, prestar contas à população, fazer uma boa comunicação e alcançar os melhores resultados. Tudo isso se torna possível quando fazemos com que o sistema se retroalimente, deixando de seguir uma linha que sabemos não ser infinita e que termina em um aterro sanitário, consumindo cada vez mais espaço.

O aterro sanitário é uma importante obra de engenharia e cumpre uma função essencial, mas não representa a solução mais inteligente a longo prazo. Ele é necessário, mas, como sociedade, precisamos pensar que, quanto mais reaproveitarmos os materiais — que é o cerne da economia circular —, melhor será para todos.

Mais sobre Gabriela Otero

Geógrafa e mestre em ciências pela USP, Gabriela Otero é gerente de Água, Oceano e Resíduos do Pacto Global da ONU – Rede Brasil e atua há mais de 15 anos em projetos de gestão de resíduos sólidos, economia circular e combate à poluição de ambientes aquáticos.

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