Guardiões do Mar: proteger os manguezais é cuidar do nosso futuro

Guardiões do Mar: proteger os manguezais é cuidar do nosso futuro

Artigo: Pedro Belga

Ao longo dos últimos anos, na Guardiões do Mar, aprendemos que o manguezal não é apenas uma floresta costeira. Ele sustenta modos de vida, culturas tradicionais e uma bioeconomia que garante alimento e renda para milhares de famílias.

Mais de 60% das espécies comerciais marinhas dependem do mangue em alguma fase da vida. Peixes, crustáceos e moluscos encontram nesses ambientes as condições necessárias para crescerem e se reproduzirem. Quando esse equilíbrio é rompido, não é apenas a natureza que perde. As comunidades que vivem da pesca artesanal e da coleta de caranguejos também passam a enfrentar redução da produção e da renda.

Por isso, gosto de falar em sociobiodiversidade. Não existe biodiversidade dissociada das pessoas que vivem nesses territórios. Quanto mais saudável é o manguezal, maiores são as oportunidades para que essas comunidades mantenham a sua cultura, o seu trabalho e a sua qualidade de vida.

A degradação começa muito antes de chegar ao mangue

Muitas pessoas imaginam que a degradação dos manguezais começa quando encontramos lixo preso às raízes ou percebemos a redução da fauna. Na realidade, o problema começa nas cidades.

Quando não há coleta e tratamento de esgoto, os corpos d’água recebem cargas elevadas de matéria orgânica e nutrientes. Esse excesso favorece a eutrofização, reduz a quantidade de oxigênio disponível e compromete todo o ecossistema. Ao mesmo tempo, metais pesados, bactérias, outros patógenos e poluentes passam a fazer parte da cadeia alimentar.

Os manguezais funcionam como filtros naturais, mas eles têm limites. Se continuarmos lançando poluentes nesses ambientes, estaremos comprometendo justamente os ecossistemas responsáveis por proteger as nossas águas e a nossa biodiversidade.

Os impactos chegam rapidamente às comunidades tradicionais. A queda na quantidade de peixes, caranguejos e mariscos reduz a produção pesqueira, afeta a bioeconomia local e aumenta a vulnerabilidade das famílias que dependem diretamente desses recursos para sobreviver.

Restaurar também é gerar oportunidades

Na Guardiões do Mar, trabalhamos desde 2012 na restauração de manguezais. Já plantamos mais de 130 mil árvores e seguimos ampliando as áreas restauradas por meio de novos projetos.

Mas aprendemos, na prática, que restaurar um manguezal vai muito além do plantio de mudas.

Criamos a Operação Limpa-Oca, uma iniciativa que remunera pescadores e catadores de caranguejo para retirarem resíduos sólidos acumulados nos manguezais. Mais de 600 pescadores do Recôncavo da Baía de Guanabara já participaram da ação, que resultou na retirada de mais de 150 toneladas de materiais em pouco mais de 60 hectares.

Essa experiência nasceu de um aprendizado com quem vivencia o mangue todos os dias. Foi um catador de caranguejo, Adílio Campos, quem nos mostrou que um sofá ou um pneu abandonado ocupa o espaço onde deveria existir uma toca de caranguejo. Onde há resíduos, não há abrigo para a fauna.

Quando retiramos esses materiais e restauramos a vegetação original, devolvemos ao manguezal as condições para que a biodiversidade se recupere. Com mais cobertura vegetal, aumentam as áreas disponíveis para a reprodução das espécies e as oportunidades de geração de renda para quem depende desses ambientes.

Conservar o mangue também fortalece comunidades

Os resultados da restauração não aparecem apenas na paisagem.

Áreas recuperadas apresentam maior cobertura vegetal, mais biodiversidade e melhores condições para espécies como o caranguejo-uçá, um dos principais recursos da bioeconomia das comunidades costeiras.

Além disso, um ambiente saudável cria oportunidades para outras atividades, como o turismo de base comunitária. Na Baía de Guanabara, pescadores artesanais, quilombolas, agricultores familiares e catadores de caranguejo recebem visitantes interessados em conhecer os manguezais, observar a natureza e vivenciar a cultura local.

Esse tipo de turismo depende diretamente da qualidade da água, da conservação ambiental e da participação das próprias comunidades na gestão do território.

 

O futuro dos manguezais depende de escolhas coletivas

O Brasil já protege grande parte dos manguezais, mas ainda precisamos avançar muito para garantir a sua conservação.

É necessário fortalecer as políticas públicas voltadas à bioeconomia, ampliar a educação ambiental, combater ameaças como a especulação imobiliária e a carcinicultura predatória, garantir a segurança territorial às comunidades tradicionais e integrar cada vez mais o conhecimento científico aos saberes locais.

Também precisamos ampliar a participação dessas populações nos espaços de decisão. São elas que conhecem profundamente esses territórios e que convivem diariamente com os seus desafios.

Proteger os manguezais não significa apenas conservar um ecossistema. Significa preservar culturas, fortalecer economias locais, melhorar a qualidade ambiental e criar condições para que as próximas gerações continuem vivendo desses territórios.

Na Guardiões do Mar, aprendemos todos os dias que cuidar do mangue é, acima de tudo, cuidar das pessoas.

Sobre o autor 

Pedro Belga é ambientalista e fundador da Guardiões do Mar. Atua na articulação socioambiental e na defesa dos ecossistemas costeiros, com foco na Baía de Guanabara e nas comunidades tradicionais de pescadores e catadores de caranguejo. 

Fotos: Acervo Guardiões do Mar

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