Quando uma embalagem plástica, uma bituca de cigarro ou um copo descartável desaparecem levados pela chuva, muitas pessoas acreditam que o problema também desapareceu. Mas a realidade é outra. O lixo descartado incorretamente nas ruas inicia uma jornada silenciosa que passa por bueiros, galerias pluviais, córregos e rios urbanos até alcançar praias, estuários e oceanos.
Esse fenômeno é conhecido como poluição difusa, um dos grandes desafios ambientais das cidades brasileiras. Diferentemente de uma fonte específica de contaminação, ela é formada por resíduos espalhados no ambiente urbano que acabam sendo transportados pela água da chuva.
O resultado desse percurso invisível é alarmante: conforme o relatório “Fragmentos da destruição”, da ONU (publicado em 2024), o Brasil despeja cerca de 1,3 milhão de toneladas de plástico nos oceanos todos os anos, ocupando a oitava posição entre os maiores poluidores marinhos do planeta e liderando esse ranking na América Latina.

A primeira parada: bueiros e galerias pluviais
Tudo começa nas ruas. Sacolas plásticas, garrafas PET, embalagens de alimentos e outros resíduos são arrastados pela água da chuva para bocas de lobo e sistemas de drenagem urbana.
As galerias pluviais não são a rede de esgoto, elas apenas conduzem a água da chuva. Isso significa que qualquer resíduo lançado nesses sistemas segue praticamente sem barreiras em direção aos corpos hídricos. Quem explica é o biólogo marinho e presidente do Instituto Mar Urbano, Ricardo Gomes.
“Quando jogamos o lixo fora, também impactamos o mar. Muitas vezes, esse resíduo vai para lixões; depois, a chuva leva o chorume para o lençol freático, que acaba chegando ao oceano.”
Outro fator é que, além da poluição ambiental, o acúmulo de lixo nos sistemas de drenagem contribui para o entupimento das galerias e aumenta o risco de alagamentos e enchentes, problema cada vez mais frequente em grandes centros urbanos.
Os rios funcionam como verdadeiras estradas que transportam resíduos por centenas de quilômetros até o litoral.

Microplásticos: a poluição que não pode ser vista
Ao longo desse trajeto, grande parte dos resíduos plásticos se fragmenta, formando microplásticos. Hoje, esses fragmentos são encontrados em rios, lagos, praias, oceanos e até mesmo em organismos marinhos destinados ao consumo humano.
A presença desse material nos ecossistemas aquáticos representa uma preocupação crescente para a saúde humana e para a segurança alimentar.
O oceano começa na cidade
Em 2018, a revista científica Science publicou que 41% de toda a área marinha do planeta já sofreu algum tipo de impacto causado por atividades humanas. Entre os principais fatores estão o descarte inadequado de resíduos sólidos e o lançamento de esgoto sem tratamento nas cidades, ou seja, longe do mar.
Outro dado, dessa vez do Sinisa/Trata Brasil (publicado em 2023), revela que, no país, o meio ambiente recebe diariamente 5.481 piscinas olímpicas de esgoto não tratado, comprometendo a balneabilidade e a qualidade ambiental.
Saneamento é parte da solução
Como uma luz no fim do túnel, o saneamento ocupa uma posição estratégica na recuperação dos oceanos, na construção de cidades sustentáveis e na qualidade de vida da população. A redução da carga poluidora melhora a condição das águas costeiras, favorece a biodiversidade marinha e fortalece atividades econômicas como o turismo, a pesca e o lazer.
No mês de junho, o Saneamento Salva vai trazer exemplos dos impactos positivos do tratamento do esgoto em vários municípios brasileiros e mostrar histórias de transformação que estão contribuindo para um ambiente mais saudável. Acompanhe!

Texto: Ray Santa Cruz
Fotos: Acervo Ricardo Gomes e arquivo da Aegea
Fontes: AMDA| ClimaInfo | Circuito Ambiental| Trata Brasil